O TERCEIRO DESAFIO
Arnado
Celso do Carmo
Os dois primeiros desafios
que foram descritos no artigo
anterior:
o profissional e o das relações afetivas,
na verdade, são apenas bons meios de nos familiarizarmos
com a maneira como a vida acontece nesta Terra.
São como oportunidades de termos assuntos e interesses
em comum
com nossos companheiros de jornada e podermos nos aproximar
do verdadeiro sentido da vida.
Chances de conhecer – e aperfeiçoar - o que chamamos
de “natureza humana”: a dos outros mas principalmente
a nossa.
Mas à medida em que gradualmente vamos superando esses
desafios iniciais, encontrando uma profissão onde podemos
desenvolver e
exercer potenciais que muitas vezes nem conhecíamos dentro
de nós e aprendendo a viver nossas relações
afetivas de forma madura, intensa e equilibrada, e assim expressando
o equilíbrio de uma forma geral e natural em nossas atividades
cotidianas, nos damos conta de que o real sentido das coisas ainda
nos escapa.
Começamos a reconhecer um discreto desconforto
dentro de nós,
uma insatisfação sutil, como se algo ainda nos faltasse.
Apesar de uma certa tranquilidade que passa a fazer parte das
nossas vidas, sentimos que é aqui que o verdadeiro desafio
se apresenta.
Foi como se tudo o que fizemos até agora tivesse sido apenas
para nos preparar para esse momento e nos trazer até esse
lugar.
O ponto onde as luzes deste mundo já não nos atraem
da forma compulsiva como costumavam fazer,
quando já não nos sentimos impelidos ou obrigados
a nada,
o que não significa que tenhamos perdido a alegria com
as coisas normais. Longe disso, aprendemos a desfrutar
como nunca do nosso “estar no mundo” sem os sobressaltos
e vacilos comuns do início da vida adulta.
Mas o que fazer com tanto equilíbrio,
tanta energia disponível,
tanta capacidade de compreensão, tanto poder de realização,...
tanta liberdade? Todo guerreiro que chega a esse ponto tem que
enfrentar essa questão.
E agora?
A mim ocorrem apenas duas alternativas, duas respostas disponíveis,
nenhuma melhor do que a outra.
Dois direitos conquistados pelos guerreiros.
A primeira é viver o que se poderia chamar
de “vida feliz”.
Empregar seu trabalho disciplinado e todos os frutos da superação
dos desafios iniciais – os dois que descrevi e muitos outros
dos quais não tivemos a chance de falar - na direção
de construir uma vida dentro desse mundo, cumprindo suas regras
e usufruindo da sua capacidade de gerar uma realidade à
sua volta compatível com a sua vontade. Em outras palavras,
tornar-se alguém “bem sucedido”, chegar ao
ápice da carreira, alcançar o que quer que tenha
desejado verdadeiramente: fama, fortuna, prestígio profissional,
reconhecimento, auto-estima, etc. Talvez dedicar seu tempo livre
a alguma atividade voluntária, ajudando os que ainda estão
aprendendo como superar os obstáculos iniciais. Enfim,
uma vida boa e feliz.
A outra, o verdadeiro desafio, é seguir em
frente, descobrindo a nossa real missão neste planeta maravilhoso:
despertar, deixar cair o manto de ilusões com que nos cobrimos
durante todo este tempo.
Toda a nossa energia será necessária aqui porque
as forças do mundo comum, tão habituadas ao domínio
completo e sem contestações da nossa vida, certamente
revidarão. Não por “maldade”, por alguma
característica nefasta deste mundo ou por alguma força
demoníaca maligna que “queira” nos prender
aqui. Não,... nada disso. Apenas hábito, nada mais.
Um hábito tão profundamente enraizado nas nossas
mentes que nos acostumamos a chamá-lo de “realidade”.
E como todo hábito, se um dia foi formado,
outro dia poderá ser transformado.
Mas toda disposição será necessária,
toda motivação, todo empenho,
todos os recursos, toda paz, todo equilíbrio, toda fortuna,
toda alegria, toda doçura, toda pureza, toda gratidão,
toda generosidade, toda impecabilidade, toda compaixão,
toda presença.
E porque?
Porque esses atributos, todos,
são os que terão que ser deixados para trás.
Eles nos ajudam, nos empurram, e em seguida são abandonados,
transcendidos, integrados num modelo de vida muito maior, muito
mais abrangente. Nenhuma perda. Nenhuma dor. Nenhum sofrimento.
Os que se aventurarem por aqui receberão toda ajuda necessária
ou,
como diz o Curso em Milagres, “receberão toda ajuda
que forem capazes de aceitar”.
E o que se seguirá é algo que nós só
podemos vislumbrar do ponto em que estamos agora e que nenhuma
palavra pode descrever. Nada sobre o que se possa falar. Mas experimentar
sim... todos igualmente.
Encontrar e viver a nossa espiritualidade, nossa verdadeira natureza,
sem restrições de nenhum tipo, o Infinito em nós,
disponível a qualquer um disposto a seguir por este caminho.
Nenhum lugar físico a se chegar, nenhuma meta que não
o próprio caminhar livre, a expressão fluida da
nossa humanidade.
VOLUNTÁRIOS ?
PS: Eu sei
que a maneira como apresentei os nossos "mestres" desafios
foi mais didática do que uma descrição fiel
da forma como as coisas acontecem. Para poder falar sobre eles
escolhi assim, porém é certo que as oportunidades
não se sucedem na vida comum como se fossem saídas
do currículo de alguma escola primária, mas quase
sempre surgem umas dentro das outras, simultaneamente, sobrepondo-se
de muitas maneiras ricas e imprevisíveis. Mas um olhar
atento poderá identificá-las sem muita dificuldade.