INGENUIDADE OU INOCÊNCIA
Arnaldo
Celso do Carmo - 11/2003
Sempre
me surpreendeu a incrível confusão que fazemos
entre essas duas palavras, parecidas mas com significados completamente
diferentes. Nosso conhecido ego sempre procurou confundir as
duas porque isso certamente aumentaria o conflito, seu único
objetivo.
Eu
me lembro muito bem de ter crescido ouvindo pessoas muito sérias
dizendo frases também muito sérias, do tipo: fulano
de tal é só um tolo, um inocente útil;
no mundo real não há lugar para a inocência;
a primeira vítima da vida adulta é a inocência,...
e muitas mais. Pontuadas de “experiência de vida”.
Hoje elas me parecem engraçadas,... tão arrogantes
quanto cheias de ignorância. Quanta tolice disfarçada
de maturidade.
A
palavra certa das frases acima é ingenuidade. Não
precisamos mais confundir os dois termos. Ninguém precisa
acreditar que o simples fato de entrar na vida adulta, única
fase da vida onde podemos ser inteiramente livres, vai nos fazer
perder a inocência.
Para
nós, que tivemos a oportunidade de receber alguma iniciação
no caminho espiritual, a ingenuidade se refere ao desconhecimento
dos truques e maneiras do ego se portar. O ingênuo
é aquele que acredita no ego, que segue seus conselhos
porque acredita que ele é real e tem alguma importância
em sua vida. Ele não percebe sua natureza ilusória
e continua levando-o a sério, sofrendo e chorando por
ele e com ele, contentando-se com suas pequenas recompensas,
cuidadoso em atender os seus caprichos porque temeroso de receber
suas terríveis punições.
O
inocente, ao contrário, conhece os meios do ego como
ninguém. Sabe exatamente como ele se comporta e o considera
tão sério e importante como uma pequena criança
mimada. Ele vê através do ego, para além
do véu de fantasias e distrações que ele
se esforça por criar e manter diante dos nossos olhos.
Vê a verdade, o núcleo da única realidade
que existe. O inocente vê a luz onde o ingênuo
vê a escuridão. Para ele só existe a luz.
Para onde olhe vê a presença do amor.
Reconhece tudo como parte de si mesmo. Ele não vê
diferenças onde não há nenhuma, percebe
a unidade da Criação e porisso não se assusta
nem se culpa por nada do que acontece neste mundo.
O
inocente pratica a Justiça Divina: para ele tudo já
foi perdoado. E quando o ego faz as suas estripolias para chamar
a atenção e se fazer passar por importante, tudo
o que consegue tirar do inocente são boas gargalhadas
e um sorriso compreensivo.
O
ego nos provoca: “farei de você um homem adulto
e poderoso mas isso vai te custar algumas coisas, e a primeira
delas será a sua inocência”. Brrr,...
que arrepio! “Ha, ha, ha”,... responde o homem inocente,
“a minha inocência não está ao
seu alcance, meu amigo. É eterna e contra ela você
nada pode fazer. Volte para os seus brinquedos e, por favor,
quando estiver cansado avise-me, pois então haverá
algo que poderemos fazer”.
É
assim que me agrada definir o Trabalho: um conjunto de conceitos
e práticas capazes de fazer com que cada um de nós
deixe de ser ingênuo sem que isso nos custe a inocência.