Sérvio
Túlio Prado Júnior
O Trabalho
é um dos muitos nomes que foram dados à busca humana
pela transcendência, pelo inefável, pela experiência
mais intensa, inteira e profunda. Talvez, mais do que a razão,
seja alguma forma de paixão aquilo que verdadeiramente
nos diferencia e conduz - a paixão pela verdade última,
pelo Absoluto.
Mas a paixão, se verdadeiramente paixão, não
pode ser domesticada. O Trabalho também não. Ele
não se cristaliza em nenhuma forma de receita, manual,
magia, ciência ou ritual. O Trabalho é
feito do mesmo tecido da Vida. Nele cada um descobre ser, em essência,
o próprio Tecelão.
E o Trabalho,
se verdadeiramente Trabalho, deve estar sempre nos levando para
além dos limites da nossa compreensão ordinária,
da nossa capacidade explicativa e classificatória, do nosso
conforto mental cotidiano.
E porque isso é assim ? Pela simples razão do Trabalho
ter de nos levar para além de nós mesmos, para além
daquilo que pensamos ser, ou seja, para além, muito além,
dos nossos próprios egos. O Trabalho é
aprender ser parte ativa e consciente da Criação.
Aprender é algo que sempre desorganiza o que se acreditava
saber. E o ego é aquela parte de nós mesmos que
se apega ao que já pensa dominar e que se apavora ao vislumbrar
que muito ainda falta por conhecer.
É importante notar que não é só através
da vaidade e da arrogância que o ego pode tentar se proteger
da própria ignorância. Ele é também
capaz de construir as mais completas e racionais explicações
sobre os nossos próprios limites e sobre os perigos do
mundo. Nesses casos o ego estabelecerá uma relação
de predileção pelos temas associados às doenças
em geral, à falta de tempo, de talento e de dinheiro ou
à não-adequação a um padrão
de beleza física socialmente consensuado.
A vida para o Não-Ego é uma tarefa bem mais simples
e infinitamente mais rica. Ela é produzida pela nossa atenção
ao momento presente. Quanto maior a qualidade dessa atenção,
maior nossa liberdade e maior nosso potencial amoroso. Só
o Não-Ego é verdadeiramente capaz de amar, porque
só ele ama sem impor condições. Não
impõe condições porque não tem qualquer
medo, e por isso não precisa refugiar-se atrás de
muralhas ou trincheiras. Como não precisa construí-las,
é capaz de concentrar toda sua energia em realmente viver
e criar.
Como se pode perceber, o Trabalho não é necessário
para o Não-Ego.
É o Ego quem realmente precisa dele. Será o Ego
quem deverá se submeter ao treinamento da atenção
e da presença. Ego e Não-Ego coexistem permanentemente
dentro de cada um de nós.
O Ego, entretanto, parece predominar na maior parte do tempo em
que nos consideramos acordados. Por paradoxal que possa parecer
ele deverá ser, de algum modo, convencido a participar
de experiências que visam, gradualmente, transcendê-lo.
A razão de ser dos grupos de trabalho do ISH é exatamente
esta: fazer com que cada um dos seus participantes seja capaz
de convencer seu próprio Ego a pelo
menos tentar. Aquelas tentativas feitas com alguma sinceridade
certamente produzirão resultados satisfatórios,
aumentando as possibilidades para uma espiral contínua
de real evolução e cura.
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