DOR X SOFRIMENTO
Arnaldo
Celso do Carmo
Toda vez que a gente tenta avançar na compreensão
da vida, dar um passo
em direção à liberdade, ousar pensar por
si mesmo, tomar suas próprias decisões,
enfim, mostrar algum grau de independência, sempre tem alguém,
externo ou interno,
que, com a “melhor das intenções”, nos
ameaça com a “dor”.
Alguma dor: separação, solidão, perda,
insegurança, dificuldades em geral, etc.
Nos dizem: - Que legal que você pense assim, mas se começar
a agir de acordo
(porque pensar pode, fazer é que não pode)
a sua mulher não vai aguentar e poderá te deixar;
você talvez perca o emprego; quem sabe vá ser perseguido
por uma dessas instituições oficiais que existem
para garantir que tudo vai continuar como sempre foi; ou então
as pessoas vão te achar muito esquisito e não vão
querer ser seus amigos; você vai ficar sem grana, passar
“dificuldades”... e por aí afora.
É interessante lembrar que essa ameaça começou
quando éramos pequenos,
quando nos arriscavamos a fazer diferente das outras crianças
e sempre tinha aquele "pó-de-arroz" na turma
que achava que fazer "bonitinho prá fessôra"
era a única coisa que importava e te dedava, ou os amiguinhos
sumiam por medo, ou os mais velhos davam longas lições
de moral e às vezes até o amor dos pais ficava a
perigo.
E assim, desde essa época, pequenininhos ainda, nos acostumamos
a evitar esses procedimentos que, sem sombra de dúvida,
nos causariam dor, e tratamos de ser bem comportadinhos, de preferência
tomando atitudes medianas que agradassem o maior número
de pessoas possível.
Com o tempo fomos nos esquecendo dessas origens e nem mesmo reconhecemos
mais as ameaças – agora implícitas. Começamos
a conviver com elas como se fossem tão naturais como a
chuva e, pior, começamos nós também a ameaçar
os outros.
Viramos rinocerontes, como disse aquele autor famoso.
Olhares opacos e tristonhos.
O medo da dor tem sido o mecanismo de controle pessoal e social
mais eficiente e o mais utilizado há milênios. Tem
grande aceitação social e já se confundiu
com a “natureza” da vida. "Shit happens...,"
dizem os americanos.
No entanto, com o avanço do Trabalho
Sobre Si Mesmo, onde retomamos o
impulso do menino de descobrir o Mundo, começamos a nos
lembrar de que
isso não precisa ser assim, se você
não quiser.
Percebemos que o mecanismo de controle está todo baseado
nua grande confusão, num suporte frágil que não
resiste a uma boa avaliação sincera. Senão
vejamos:
Todo esse mecanismo é controlado em última instância
pelo nosso agora
conhecidíssimo adversário: o ego,
que manobrou habilmente para permanecer nas sombras durante séculos
mas que vem sendo exposto definitivamente, para seu desespero,
porque sabe que isso significa que seus dias sobre esta Terra
estão contados. No entanto, sua habilidade e malícia
foram grandemente aperfeiçoadas no longo período
em que deteve o poder absoluto sobre nossas vidas.
Durante todo esse tempo o ego, que se alimenta especialmente de
medo e sofrimento, criou uma confusão fundamental à
qual acabamos nos acostumando:
Ele nos convenceu de que dor e sofrimento são
a mesma coisa!
O medo da dor era justificado porque o sofrimento seria inevitável
e assim só nos restava sentir: ou medo da dor que
poderia acontecer ou sofrimento pela dor que já
havia acontecido em nossas vidas. Pior que vida de cachorro, não
é? Não tínhamos saída.
Qualquer dor, física ou emocional, significava sofrimento
certo. Uma picada de agulha, uma dor de dentes, uma batida na
ponta da mesa, o rompimento de um relacionamento, a perda de alguém
querido por qualquer razão,... etc.
Tínhamos que evitar tudo isso ou então sofrer com
resignação
os baques “naturais”da vida.
Só que nós descobrimos – e tem cada vez mais
gente descobrindo -
que dor é dor e sofrimento é sofrimento!
Dor é o fato, a coisa acontecida. Sofrimento é
a nossa resposta ao fato, nossa reação.
Dor costuma ser rápida, durar pouco: uma picada,
uma pancada, uma perda, uma rejeição. Sofrimento
costuma se arrastar, às vezes por dias, anos ou
até por toda uma vida, permitindo assim que o seu criador
– o ego – sobreviva sem esforço
às custas da nossa melhor energia. A dor sempre pode acontecer
nesse mundo feito de tempo e corpos.
O sofrimento não precisa acontecer, ou pelo menos podemos
aprender a gerenciá-lo, impedir que ele se arraste indefinidamente
e acabar controlando-o com a prática
(muita prática é verdade, porque estamos muito bem
treinados na atitude oposta, de deixar o sofrimento fluir livremente
como se fosse algo neutro
ou que até nos enobrecesse! Que ingenuidade! ).
Dor, às vezes é física, às vezes é
mental. Sofrimento é sempre mental e, portanto, está
sempre ao nosso alcance. Se aprendermos a eliminar o componente
de sofrimento da dor ela perderá todo o seu poder de nos
causar medo e aí nem medo nem sofrimento nos incomodarão
mais.
Resultado: mais liberdade e mais alegria - e menos ego.
E como podemos fazê-lo?
Compreendendo a verdadeira dimensão de todos os fatos que
acontecem
nessa vida, o que inclui necessariamente a morte.
O poder do sofrimento está apoiado firmemente no cultivo
dos valores do ego
ao longo de toda uma vida, e não só da nossa vida
pessoal
mas também dos que vieram antes de nós e formaram
nossa cultura.
Quando valorizamos suas idéias, seus critérios,
sua forma de interpretar os acontecimentos da vida, estamos inconscientemente
gerando sofrimento dentro de nós e distribuindo-o para
todos à nossa volta.
Quando caminho pela rua e vejo pessoas que julgo dessa ou daquela
maneira, feias ou bonitas, magras ou gordas, altas ou baixas,
e levo em conta esses julgamentos “inocentes” na minha
relação com elas, estou deixando de ver a sua verdade,
que é a de que são seres perfeitos, como eu, sem
culpa e imortais.
Qualquer que seja a forma que estejam assumindo neste momento
particular, se eu me fixo nesta aparência e me esqueço
da verdade então estou gerando sofrimento.
E não é “pouco” ou “muito”
sofrimento.
É simplesmente todo sofrimento que existe.
O ego nos faz ficar surpresos com tanta simplicidade e tanta responsabilidade,
não é?
Mas estamos nos acostumando a elas. E quando às vezes alguém
mais experiente
tenta me alertar para como as coisas estão realmente acontecendo
eu,
devido ao meus longos anos de treinamento contínuo e ao
fato de ver todo mundo fazendo o mesmo – gerando sofrimento
sem perceber - ainda hesito em acreditar. Muitas vezes até
fico bravo e o ataco (mais um truquezinho!).
Nossa saída está em começarmos a abandonar
os julgamentos de qualquer natureza, principalmente os mais comuns
e que pareçam ser os mais inocentes, pelo simples fato
de que não há julgamentos inocentes.
É preciso aprender a evitar a sedução da
forma e ir além até o conteúdo verdadeiro.
Se há julgamento há sofrimento, essa é a
lei simples que nós mesmos criamos.
Em seu lugar nos acostumaremos a colocar o silêncio.
A dor vivenciada por uma mente habituada ao silêncio
é uma experiência completamente diferente.
Tem um caráter neutro e já não nos assusta
mais. Não temos mais medo dela porisso não precisamos
mais fugir. Economizamos uma enorme quantidade de energia, o que
nos impulsiona mais à frente ainda. Começamos a
buscar outros desafios e a perceber a incrível beleza que
nos cerca neste mundo.
Nossos olhos finalmente começam a se abrir e a alegria
de estar vivo volta a ser o nosso estado natural novamente.
Se estivermos acostumados a tratar o sofrimento de forma madura
então a dor não precisará mais ser temida
e a nossa vida começará a florescer.
Não se esqueçam: a dor acontece neste
mundo de tempo e corpos mas o sofrimento pode ser evitado e a
paz pode voltar a ser o nosso estado normal.
Sem esforço, como tudo que é verdadeiro.
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