A tarefa do educador é
promover o aprendizado, mas o
que é ensinar?
O
que é ser professor?
Humberto Maturana, um biólogo chileno contemporâneo
responde a estas perguntas em um
bem
humorado texto no qual coloca que ensinar é
“criar um espaço de convivência...”
Que essa é a tarefa do educador, criar as condições
para que um grupo “viva junto”. O
professor é a pessoa que deseja a responsabilidade de
criar espaços de convivência, este
domínio de aceitação recíproca numa
dinâmica em que todo o grupo vai mudando junto”.
Eu sempre acreditei que o professor e aluno vão trocando
de papel a cada interação.
O professor ensina os alunos e os alunos ensinam o professor
e essa interação permite que
ocorra a criação do espaço de convivência,
o espaço para o aprendizado.
Mas o que é aprendizado? Segundo a definição
de Maturana, aprender é mudar.
Aí aparece uma nova questão. Quanto o estudante
muda em relação à sua experiência
de
aprendizado? Quanto o professor muda em função
do espaço de convivência por ele criado?
Os educadores propõem, ao planejar um espaço de
convivência, objetivos que permitem avaliar
as mudanças, avaliar o sucesso em obter as mudanças.
Ao avaliar os objetivos de um curso,
podemos ser pragmáticos e analisar em números
como está sendo a eficácia da formação.
Números positivos são indicativos do sucesso,
do objetivo atingido, geralmente o de formar
profissionais competentes para atuar competitivamente no mercado
de trabalho. Mas será que
esse é o único
objetivo dos educadores? Será essa a única mudança
que desejamos e
planejamos? Isso basta?
Recorro aqui a outro biólogo, a palavra competição
tem um significado particular quando se
pensa em Charles Darwin e sua teoria da evolução,
publicada em 1859. Em “A origem das
espécies”, Darwin coloca como fator importante
na preservação de uma espécie que os
organismos devem ser aptos para lutar pela sobrevivência,
competindo pelo alimento, água, luz,
etc. Nessa teoria da seleção natural, Darwin coloca
que o organismo mais apto, ou aquele que
apresenta as variações
mais favoráveis, está mais bem equipado para “ganhar”
essa luta.
Darwin se baseou, entre outros, em um estudo de Thomas Malthus,
1798,
que dizia que a população (humana) crescia em
uma razão diferente (geométrica) do que a
disponibilidade da comida (aritmética). E então
para se ter emprego (comida), para assegurar a
subsistência, era necessário ser o melhor.
O que é ser o melhor? Malthus estava
correto? Devemos mesmo “lutar” pela sobrevivência,
ou existe outra forma de fazer? de sobreviver?
Para sermos ”os melhores” temos mesmo que “competir”?
.
Em seus estudos, os filósofos Deleuze e Guatarry colocam
que muito provavelmente por essa
angústia com a competição, o homem ocidental
coloca a sua felicidade na falta, na carência.
Desejamos o que não possuímos e a incompletude
é tida como certa e inexorável.
A felicidade é algo que está sempre fora de nós.
Nietzsche, Spinoza e outros filósofos por outro lado,
concebem o desejo como força,
não como falta.
Assim nosso desejo será a força que move para
atingir o objetivo e
a felicidade então, está dentro de nós.
Então por que acreditamos na escassez mesmo vivendo em
um mar de abundância?
Volto novamente para biologia e coloco o exemplo que deveria
servir de guia para nosso
desenvolvimento: a vida nos ensina que a melhor maneira de sobreviver
é variar.
Assim, o desejo de um educador pode ser maior do que simplesmente
tornar seu aluno “o mais apto”.
A esse desejo pode ser adicionada a incumbência de apontar
aos alunos a
responsabilidade que estes adquirem ao mudar.
Os estudantes (professor e alunos) têm a oportunidade
de aprender,
de ensinar e repartir um espaço de convivência
muito rico.
A mudança final pode ser avaliada em termos numéricos
e resultar na visão de que terminado o ciclo de aprendizado,
as pessoas estão preparadas para atuar na sociedade.
Pela ótica da escassez, podem ser considerados como melhores.
No entanto, essa avaliação pode ser mais profunda
e diversa,
pode ser enxergada pela ótica da abundância, em
que cada um é único.
Assim, o espaço de convivência foi utilizado para
mudar cada estudante em um ser especial.
Único para cumprir o seu papel social e humano.
Cada um com a incumbência de criar um espaço, numa
sociedade que seja capaz de reverter o paradigma da escassez
para a abundância, de tornar essa utopia possível.
De certamente poder contribuir para que o Homem fique um ser
humano melhor!